Saturday, September 16, 2006

O Fim



A escadaria de pedra estava iluminada pelos últimos raios de sol, avermelhados e quentes. Ali estava ela parada, olhando-me no centro dos degraus, à minha espera.
Os olhos, que antes eram feitos de fogo, estavam agora transformados em dois lagos azuis, translúcidos.
O vórtice da espiral que eu tinha adivinhado naquele mapa, resplandecia na minha frente e chamava-me.
Subi, um a um os degraus de pedra que poderiam ter sido um jardim de inverno. Subi as escadas ao encontro do anjo de caracóis loiros e olhos azuis e quando olhei para trás encontrei a passagem, novamente tapada com o contraplacado que a tinha encerrado durante muitos anos.
Voltei a olhar em frente e percebi que aquele anjo era a minha mãe.

Saturday, August 19, 2006

O Fogo


O Fogo

O verão chegou de repente com temperaturas diferentes dos registos habituais naquele lugar, húmido e sombrio.
O ar estava seco, sempre que tocava na porta do carro apanhava fortes esticões provocados pela electricidade estática.
Na rua deserta, passou a habitar uma figura que podia ter chegado do céu ou do inferno.
Sentava-se nos degraus da entrada das casas e ali passava horas a fio em absoluta concentração ou em absoluto delírio.
No principio não consegui perceber se era homem ou mulher. Parecia um anjo barroco, rosto gorducho, caracóis loiros, olhos azuis.
Preenchia obsecadamente pequenas revistas de palavras cruzadas. De repente descruzava as palavras, na sua própria língua, e gritava frases proféticas, bíblicas, vindas de outro tempo, onde descrevia cenários apocalípticos e seres de outros mundos.
Ali ficava sentada nas portas das casas da rua como uma ave de mau agoiro ou um anjo caído na desgraça terrena. Sem história, sem passado. Aparecia e desaparecia por artes misteriosas.
Um fim de tarde quando cheguei a casa ela estava sentada na entrada da minha porta e levantou-se para me deixar entrar, percebi que era uma mulher.
Pediu-me desculpa por estar ali , e disse-me que aquela era a porta onde gostava mais de se sentar.
Olhei para os seus olhos e vi chamas. Fogo vivo vindo não sei de onde. Entrei e fechei a porta. Olhei para a escadaria e lá estava ela, olhos azuis caracóis loiros, meia homem meia mulher.

Friday, December 30, 2005

A Terra


A casa estava situada na rua mais antiga da cidade
Foi naquele promontório que a cidade nasceu. Perdia-se na história a data da sedentarização das primeiras populações naquele local. Uma das referências que eu tinha encontrado, descrevia a existência , em tempos, de um bosque e a localização de um altar pagão onde agora se erguia um templo católico, situado nas traseiras da casa.

Uma planta aérea daquela área, à qual tive acesso recentemente, mostrava bem definido o crescimento do casario em redor da catedral. A construção desenrolou-se em forma de espiral, com a catedral ao centro e, por acidente do destino, a minha casa também. Plantada no centro, como se fosse um vórtice, um ralo de banheira, por onde toda a água desaparecia ou o centro de uma hélice, de onde partia o movimento propulsor de uma força qualquer. Uma força que eu adivinhava desde o primeiro dia mas que ainda não tinha conseguido conhecer e muito menos dominar.

Monday, December 12, 2005

A Água


Aquele inverno foi especialmente chuvoso. A água escorria dos beirais dos telhados, das paredes das casas, nas ruas. Mesmo em frente à casa, o caudal do rio crescia e acabou por provocar uma terrível cheia. A força das águas destruiu uma ponte e centenas de pessoas morreram afogadas, levadas pelas águas furiosas que passavam em frente dos nossos olhos.
Quando espreitávamos o rio não conseguíamos deixar de pensar em todos os corpos transportados pela fúria das águas para o mar onde, alguns, viriam a aparecer, mais tarde.
Do tecto da escadaria, grossas pingas de água da chuva caíam no chão de pedra e marcavam o tempo, que demorava a passar. Os dias cinzentos e molhados atravessavam-se com dificuldade, um após o outro, espessos e frios.
A imponente casa, debruçada sobre o rio sobreviveu a esse inverno mas necessitou de muitas reparações.
Todas as reparações que a minha mãe queria já ter feito, acabaram por fazer-se depois dela ter morrido.
A entrada da escadaria, entretanto devolvida à casa, parecia agora uma enorme boca, molhada e viscosa, à espera de alimento.

Saturday, December 10, 2005

O Vento


A medicina oriental chinesa define, no corpo humano, um mapa de meridianos energéticos do qual se serve para fazer diagnósticos e tratamentos.
As casas também têm essas meridianos e os orientais criaram um método de tratamento das correntes energéticas dos espaços a que chamaram feng chui .

O meu pai, um homem habituado a lidar com a natureza, mais até do que com os seres humanos, alertou-me, à sua maneira. Conhecedor profundo, mas não assumido, das coisas inexplicáveis disse-me apenas que a retirada da madeira, que tapava a escadaria, iria provocar fortes correntes de ar.

Era verdade. Depois de aberta a passagem, todo o rés do chão da casa ficou envolvido numa corrente de ar, permanente e imparável.

Eu adivinhava mudanças trazidas por aquela corrente de ar, e era constantemente atraída para a entrada da escadaria, onde permanecia longos minutos numa mistura de êxtase místico e de decoradora furiosa, tentando resolver os problemas de iluminação e de recuperação do espaço recém conquistado.

Porque esteve encerrada durante longos anos, a escadaria estava danificada. Das paredes desbotadas pendiam grossas teias de aranha, como enfeites de natal cinzentos e empoeirados. O tecto, estava podre e alguns dos vidros da enorme janela, tapada por fora com uma grade de ferro, como nos conventos, estavam partidos.

À noite, sem iluminação, adivinhavam-se apenas os contornos do majestoso corrimão de pedra. Tudo o resto parecia uma espécie de buraco negro. Uma entrada para outra dimensão.

Friday, December 09, 2005

Escadaria em Pedra

Hoje, finalmente, desimpedimos a passagem que liga o primeiro ao segundo andar da casa. Estava tapada há muitos anos por uma parede de tabopan.
O que ficou encerrado entre a parede de contraplacado e a porta do andar superior era a escadaria principal da casa, feita em pedra, com tectos altos em caixotão.

Sempre soubemos que esta era a “cereja em cima do bolo”, mas só agora acendíamos as velas.
Ou seja, quando os meus pais se mudaram para esta casa, que já pertencia aos meus bisavós, fizeram obras, e a escadaria de pedra chegou a ter um belo destino, ditado pela minha mãe, uma sonhadora, que queria fazer ali um jardim de inverno.

Na altura, eu tinha 16 anos e acreditava em tudo o que ela me contava. Continuava encantada pelas histórias de fadas e esperava todos os dias pelo aparecimento de um jardim de inverno na monumental escadaria de pedra.

O tempo passou, o jardim nunca apareceu. Eu parti e regressei, um dia, para acompanhar a morte da minha mãe. O jardim de inverno passou a ser um segredo partilhado entre as duas e a escadaria permaneceu durante muitos anos encerrada .

Agora o contraplacado tinha sido arrancado e a escadaria estava aberta e pronta para ser semeada, ou semear...

Seja Bem Vindo Quem Vier Por Bem

Nasce hoje este diário da minha digestão. É verdade estou a ser digerida por uma casa.
Se quiser pode ficar por aqui e despedir-se. É isso que quase todos fazem. Só os mais distraídos continuam e, sem dar por isso, atravessam a porta de entrada.
Se for esse o caso, seja bem-vindo(a).
Este diário vai relatar, se possível, quotidianamente a história da minha digestão por uma casa. Esta digestão já começou há algum tempo mas eu só tomei consciência dela hoje. E, uma vez que pouco me resta fazer, decidi escrever este diário. Uma última tentativa de fuga, uma tentativa de salvação, não sei bem de quê, porque nunca ouvi nenhuma história igual à minha.
Não vou pedir socorro porque sei que ninguém vai ouvir. Normalmente estes acontecimentos estranhos são ouvidos unicamente pelo protagonista e alimentam-se de muito silêncio espanto e apertos no estômago.
Vamos lá então começar.